15 de outubro de 2026 22:31

Jerônimo vem buscar votos em Valença, mas Medrado pode estar entregando munição à oposição

Jerônimo vem buscar votos em Valença, mas Medrado pode estar entregando munição à oposição

 

Governador desembarca nesta sexta-feira em uma cidade onde ACM Neto já venceu em 2022 e encontra um aliado que criou uma crise que não poderia acontecer em pior hora. 

O governador Jerônimo Rodrigues tem agenda de campanha em Valença nesta sexta-feira, 11 de setembro, a partir das 8h. A expectativa é de uma caminhada pelas ruas do Centro. Só que ele vai encontrar uma Valença politicamente diferente daquela que qualquer candidato governista gostaria de visitar a poucas semanas da eleição.

A semana começou pesada para a gestão do prefeito Marcos Medrado. O atraso no pagamento de servidores municipais provocou reação pública e chegou até o 7 de Setembro. O SINDGUARDAS-BA divulgou nota de repúdio informando que, naquele domingo, os guardas municipais já contabilizavam atraso salarial e cobrando a regularização imediata. A Guarda Municipal não participou do desfile cívico, num protesto que, por si só, já diz muita coisa.

E salário atrasado é um daqueles problemas que não precisam de tradução política. Mexe com supermercado, aluguel, prestação, cartão e comida dentro de casa.

Na memória recente de Valença, uma situação semelhante remete ao fim do governo Ramiro Campelo. Registros publicados em 2013 mostram que ficaram pendentes o salário de dezembro e o décimo terceiro de servidores, dívida que acabou sendo negociada pela gestão seguinte. Ou seja: não estamos falando de uma reclamação qualquer.

Como se não bastasse, fornecedores e veículos de imprensa também vêm publicando nas redes sociais reclamações de pagamentos pendentes, alguns, segundo os próprios relatos, desde junho. É uma soma de desgastes que chega exatamente na hora em que a base governista precisa estar sorrindo, mobilizando gente e pedindo voto. Politicamente, é difícil imaginar momento pior.

E aqui entra um detalhe que ninguém deveria ignorar: Valença já deu o recado nas urnas uma vez. Em 2022, ACM Neto venceu Jerônimo no município tanto no primeiro quanto no segundo turno. Na rodada decisiva, Neto teve 53,91% dos votos válidos em Valença. Isso aconteceu mesmo com Marcos Medrado, então candidato a deputado estadual pela federação formada por PT, PCdoB e PV, sendo o candidato a estadual mais votado da cidade, com 9.874 votos. Traduzindo: Medrado conseguiu voto para ele, mas não conseguiu transferir esse voto para Jerônimo.

Quatro anos depois, a situação fica ainda mais delicada. A disputa estadual está apertadíssima: pesquisas divulgadas nas últimas semanas apontam empate técnico entre Jerônimo e ACM Neto. Portanto, numa eleição assim, cidade grande não é lugar para aliado cometer erro básico – muito menos deixar servidor esperando salário.

A oposição percebe isso. Na passagem recente de ACM Neto por Valença, o município foi tratado no palanque como um terreno favorável. Neto chegou a brincar que, “se dependesse de Valença”, já seria governador. Pode ter sido frase de campanha, claro, mas ela encontra respaldo no resultado de 2022.

É justamente por isso que a visita de Jerônimo nesta sexta ganha um ingrediente a mais. Não será apenas uma caminhada para pedir voto. Será uma entrada em território onde ele precisa recuperar terreno, e, ironicamente, tendo que administrar o desgaste produzido por alguém que deveria ajudá-lo nessa tarefa.

Seria injusto, porém, olhar para Valença e ignorar as marcas importantes do Governo do Estado. A maior delas está saindo do chão: o Hospital e Maternidade Regional Costa do Dendê, investimento estimado em cerca de R$ 154 milhões, está em construção e deverá transformar a assistência em saúde de todo o Baixo Sul. O empreendimento terá 255 leitos, incluindo UTIs, centro cirúrgico e estrutura de alta complexidade. É, sem exagero, uma das maiores obras da história de Valença e resultado da parceria entre os governos Jerônimo e Lula.

Enquanto isso, obras municipais anunciadas com prazo curto, como a Orla, anunciada pelo prefeito que ficaria pronta em 4 meses, continuam servindo de termômetro para a cobrança popular.

E política tem dessas ironias: Jerônimo tem uma obra gigantesca para mostrar em Valença, mas pode precisar gastar parte de sua visita explicando, mesmo sem ter culpa direta, o desgaste provocado pelo próprio aliado municipal.

Marcos Medrado precisava estar ajudando Jerônimo a conquistar os votos que ele não conseguiu entregar em 2022. Do jeito que a semana começou, corre o risco de fazer justamente o contrário.

Na sexta-feira, Jerônimo caminhará pelas ruas do Centro. Mas a caminhada mais difícil talvez seja outra: convencer uma cidade que já escolheu ACM Neto uma vez de que agora existem razões suficientes para mudar de lado – enquanto, dentro da própria base governista, há quem esteja facilitando o discurso da oposição.